quarta-feira, fevereiro 02, 2005

Felizmente há a porra do luar



Há dias que, antes mesmo de terem começado, já estão a correr mal.
A coisa começou com sintomas gripais. O prato de comida mal foi tocado, pois o corpo só pedia "cama! cama!". Todas as células do meu corpo gritavam debilmente "deita-nos! deita-nos!". Eu fiz a vontade, que eu sempre que posso, gosto de fazer as vontades ao meu organismo. Mas antes, num último esforço, arrastei-me até à caixa de ácido acetisalicílico. E depois, a porcaria resultou tanto, que perdi o sono. A única coisa que me restou foi uma dança bélica dentro dos meus pulmões. Quando finalmente consegui adormecer, já os sintomas gripais tinham voltado. "Estes gajos estão-me a gozar....", pensava eu. Violentamente acordada ao longo de toda a noite pelos grunhidos dos brônquios, só aliviei o meu triste fado, com quatro ou cinco palitos de chocolate, enfiados ao acaso sonolento na boca pastosa (sim, eu já tenho idade para ter a liberdade de ingerir porcarias na cama, sem lavar os dentes a seguir).
Acordei com: um aspirador, um dedo insistente na campaínha e um telefone rabugento. Aí desisti. Levantei-me, meti os apontamentos, a música, os cigarros, o dinheiro, os lenços de papel, os apegics, os ben-u-rons, as pastilhas de vitamina C, os Kompensans e umas canetas (tudo o que uma mulher precisa para ser feliz, portanto) dentro da mala do costume e exilei-me de casa. Fui a conjugar a minha estupidez até ao metro. Assoei-me 65 vezes e cheguei ao sítio de sempre, sentei-me ao lado dos companheiros de sempre (para não dizer só da companheira de sempre, que isto até pode soar pó lado que não deve, não que eu seja dessas que só quer mulheres à antiga que só gostem de homens mas....o quê? eu estou a dizer isto?!....) e tomei o mesmo de sempre. Saiu tudo de dentro da mala, menos os apontamentos...
Infelizmente, a companheira de sempre (pronto, vá....) também deve ter tido uma noite bélica com violentos ataques de tosse e também viera a conjugar a estupidez pela linha verde do metropolitano de lisboa fora (não, ela veio a declinar, assim é que foi!). Infelizmente percebi que estávamos as duas naquela altura do mês (a dos exames filhos da mãe) e que qualquer tentativa de normalidade era escusada. Assoei-me mais 65 vezes e os apontamentos continuaram na mala.
Entretanto, nestes dias, parece que tenho mel. Mas um mel estranho que só atrai bicheza idiota. E quando dou por mim, tenho uma criatura, entre o gótico e o lolita, sentada ao meu lado a fazer cábulas no dicíonário como se não houvesse amanhã, repetindo sempre (porque eu, no fundo, queria mesmo era ouvir...) "ah! eu não sei os adjectivos de segunda classe! eu não sei os adjectivos de segunda classe!". Nessa altura, usei a minha imaginação sádica. E segundos a seguir, já estava a lolita esmagada contra a parede do bar, presa com fita cola, e eu a fazer-lhe um penteado New Wave com uma tesoura, entre gargalhadas esquizofrénicas e canções da Britney Spears. Mas o rasgo delicioso foi interrompido pelo palhaço-chupeta (que já fez mais um furo na boca). O palhaço, não sei porquê, tem, ultimamente, insistido em sentar-se na minha mesa, nas minhas conversas, na minha música e, sobretudo, na minha paciência. E lá se sentou, desta vez sem dores, sem epistemologia, sem livro de filosofia (ver www.dxquesim.blogspot.com -És cool?), mas com sono, com vontade de fazer parte do filme (mas mantendo sempre a postura do que está a ver para além da coisa) e com o olhar enigmático de quem me está a dizer "é disto que tu falas??".
Voltei a assoar-me. Olho para o lado (sim, hoje esteve tudo ao meu lado, tudo....), vejo uma capa da Playmobil com desenhos arqueológicos lá dentro.... (este pessoal de arqueologia é um bocado esquisito nas suas camuflagens), vejo um gajo/gaja a desfilar pelo bar fora com um cachecol amarelo....amarelo....amarelo!, ouço um "yogista" a defender que "o pessoal que tira macacos do nariz é muito mais saudável", dou por mim a começar a trautear a Internacional e a tentar extrair música do maço de tabaco, da carteira, do pacote de lenços de papel... E quando pensava que o dia não podia ser pior, aparece-me O Duende, cheio de guizinhos e fraldas e folhos e furos e etc etc, com um teste na mão a gritar de mesa em mesa "Tive dois algarismos! Tive dois algarismos!!" (tinha tido 11...)
Voltei a assoar-me, tomei um aspegic e, antes de ir destilar o meu desespero para o anfiteatro Zeca Afonso, lancei um olhar de pânico à companheira de sempre e disse, baixinho "Musca, leva-me pós copos!!". Ela declinou a minha súplica e riu sapientemente.

4 comentários:

Jessica e André disse...

Não raras são as vezes que esta sublimação do real por simbiose nos safa de uma esquizofrenia aguda!
Eu sei, eu sei que é pesado; quando se acha que a tarde não pode piorar (quando já temos o palhaço crucificado molemente instalado na nossa mesa, quando já levámos com a gargalhada grotesca da badocha, quando já vimos passar o "Indy-Navy" nos seus folhos psicológicos), eis que vemos subir as escadas a princesa-da-prússia pseudo-sucida, com olheiras de nascença, e uma estupidez artificial que ainda ninguém percebeu se é de nascença se é por condição adquirida...
E depois há O Duende.
Mas depois há a Bela; que muda a folhinha de alface da nossa sandes de panado (porque a outra já 'tá murchita), e tira-nos dois moscatéis em copitos de pé alto (para parecer mais fino, que hoje é para comemorar); e depois há aquela compilação marada de yogistas-marxistas-anarquistas-trip-hop-psicadélicos que de uma maneira ou de outra nos poem um sorriso nas caras aparvalhadas.
E depois há nós.

castor disse...

Duas coisas:
1ª andas a ver Parker Lewis? Se não, parece.
2ª a badocha é a alarve que me falaste outro dia?

sangria disse...

1º- Sr. Ogre, bastava que o Sr. frequentasse pelo menos uma semana sítios que eu frequento, onde seria confrontado com certas e determinadas situações, para desvalorizar rapidamente qualquer série desse calibre.

2º - A badocha é essa mesma. xiu!

Jessica e André disse...

Sim, Sim!
Parker Lewis, qual Parker Lewis?

Há certos e determinados espaços culturais que são muito, mas muito mais à frente.